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10 Considerações sobre A Sociedade dos Sonhadores Involuntários

O Blog Listas Literárias leu A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, de José Eduardo Agualusa publicado por Tusquets Editores; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Lírico e onírico, A Sociedade dos Sonhadores Involuntários é uma narrativa a ser lida tanto em seu contexto político quanto literário em que os limiares dos gêneros são provocados e quando os sonhos do autor e de suas personagens interligam-se de forma a constituir-se num manifesto político bastante veemente;

2 - Voz contra a ditadura angolana, Agualusa, neste romance irá explicitar seus desejos e sua luta através desta narrativa empenhada que se utiliza dos sonhos e das nuances do gênero fantástico para estruturar seu romance de forte caráter político que tem menos de sátira e mais de manifesto de tal modo que em determinados momentos a militância explícita sobrepõe-se à narração;

3 - No romance, distintos personagens interligados pelos mistérios do sonhar, ao mesmo tempo que trazem ao leitor suas experiências oníricas, paulatinamente vão desnudando o regime de opressão e violência promovido pelo regime autoritário e ditatorial de Angola, cuja ditadura persiste desde 1979. No caso do livro, são os sonhos que aproximam-no do fantástico, contudo, a presença de um neurocientista e das próprias inexatidões confessas tornam tudo mais difuso, de modo que as subjetividades e metáforas ganham valor com tais escolhas;

4 - Essa aproximação ou mesmo imersão ao fantástico e à metáfora, aliás, tem sido uma forma eficiente e recorrente com a qual a literatura tem usado para refletir sobre o totalitarismo e o autoritarismo, como foi o caso de grandes autores brasileiros como Érico Veríssimo e José J. Veiga quando da ditadura militar no Brasil e outros grandes nomes da literatura latino-americana. Através da "suspensão" do real ou a ressignificação desta realidade, como no caso desta obra, podemos então observar as contradições, a violência e o trauma de uma determinada sociedade de modo, que a meu ver, a literatura com tanta eficiência quanto, mas muito mais humana e decente,  torna-se uma forma de luta em nome dos oprimidos e massacrados pelos déspotas, ditadores, tiranos, etc;

5 - Todavia, para um olhar crítico de maior profundidade, diversas complexidades e contradições surgirão a partir de olhares construídos para este romance, como a própria reflexão da intensidade do engajamento de Agualusa e a discussão dos limites em panfletarismo e resistência, pois imerso no drama, o caráter ideológico de tal modo explícito provoca estas discussões. Na verdade, entre a sátira e o fantástico, diferentemente, por exemplo, das obras nacionais que falamos, as quais suas problemáticas eram colocadas por meio de uma grande subjetividade - devido também as restrições da censura -, em A Sociedade dos Sonhadores Involuntários os desejos/sonhos do autor são atirados de forma tão explícita que mais parecem um grito do que a chamada ao pensar;

6 - Além disso, temos que observar as distintas vozes que surgem no romance de Agualusa. Com certo predomínio da voz em primeira pessoa de Daniel Benchimol, um jornalista tido pelos amigos como covarde perante a tirania, a narrativa ainda será fragmentada com trechos de diários, epístolas e mesmo mensagens eletrônicas de outras personagens a habitar o núcleo central da narrativa, vozes que por sinal, constantemente põe a si e a outros a suspeição de suas falas, mas que por sua diversidade estabelecem ao leitor o cenário amplo do romance;

7 - Ao observarmos então estas vozes e o próprio círculo da narrativa surge-nos um elemento de vital interesse a um leitor compromissado. Tudo gira entre rebeldes e oprimidos da ditadura angolana, entretanto de uma parcela, se é que podemos dizer assim, "oprimidos privilegiados" com alguma condição mínima de opor-se ao regime. Isto é curioso, porque talvez uma das principais reflexões do livro estará pouco visível aos leitores que é a complexidade de uma nação e suas distintas realidades, pois a trama que se dá com a aproximação dos misteriosos sonhadores coloca-nos diante de um pequeno grupo em que se há mecanismos para discutir e refletir os problemas do país, contudo, a parcela mais oprimida do povo é praticamente uma ausência. Neste sentido, por exemplo, se na obra de Luandino Vieira, antes e pós-colonial temos a dura e miserável vida dos musseques, neste romance, pelo menos, eles praticamente são invisíveis e ganham minimamente seus contornos com o olhar mais lúcido e revolucionário da narrativa que é o de Karinguiri, filha de Daniel, presa pelo regime que em uma carta ao pai expõe não só as contradições e apatia de Daniel, mas revela qual Angola de fato mais sofre, inclusive, com elementos críticos à oposição burguesa ao regime;

8 - Vejamos, portanto, que temos uma série de elementos literários a observar neste belo e interessante trabalho, mas para além deles, não poderia deixar de comentar algo que tem me encantado bastante nas literaturas dos Palops: sua linguagem melódica e dançante que assim como nosso português brasileiro possuem elementos identitários belíssimos;

9 - Claro, não poderia deixar de falar também do universo fascinante dos sonhos, e isso torna o livro ainda mais interessante porque trabalha com aquilo que provavelmente seja nossa maior proximidade com a magia: o universo onírico com suas incertezas e mistérios. Além disso, obviamente, temos aqui diferentes tipos de sonhos sendo que o livro ao final é um grande sonho, mas este do tipo de sonho que se pratica acordado, o sonho que é desejo, que é vontade, que de algum modo é utopia - no caso do romance uma utopia sobrevestida pelo distopismo - e que revelam uma grande vontade: liberdade;

10 - Enfim, A Sociedade dos Sonhadores Involuntários é uma leitura com muitas entradas e saídas. Com sua prosa envolvente entre o engajamento e a resistência é uma narrativa que certamente deve ser bem vista por leitores curiosos ou mesmo por críticos, de modo que se haverá quem não goste, provavelmente estarão nas fileiras do regime angolano. Do mesmo modo, é portanto uma leitura que nos convida a reflexões para além desta simples avaliação do blog e nos leva a debater questões ainda tão importantes para nossa sociedade, especialmente para os que anseiam por um mundo menos totalitário e autoritário.




Um comentário:

  1. Atençao Na publicidade colocaram como autor Stefam king atençao!!! parece mesmo uma PUb de terror!

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