terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

10 Considerações sobre Causo, de Eneas J. F. Severiano ou adentre nossas matas, nossas lendas

O Blog Listas Literárias leu Causo, de Eneas J. F. Severiano publicado pela Biblioteca 24 Horas; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira:

1 - Causo é uma destas leituras capaz de te surpreender com uma trama bem elaborada e narrativa conduzida com grande habilidade do autor, que acaba justamente por isso tendo como maior pecado ser publicado pela Biblioteca 24 Horas pois este é um trabalho que mereceria uma bonita edição num livro cujo exterior pudesse transparecer mais suas qualidades internas;

2 - O livro penetra por um Brasil ainda mítico e não se pode deixá-lo de comparar com o A Bandeira do Elefante e da Arara do Christopher Kastensmidt pois ambos focam nas lendas e seres há muito esquecidos, e que nas duas publicações conseguem valorizar nossa riqueza de seres fantásticos, ainda que nos dois trabalhos esses espaços lendários sejam apresentados de formas distintas e que funcionam perfeitamente bem, cada um com sua originalidade;

3 - Se um opta pela aventura de fantasia, este Causo (que na verdade bem poderia ser chamado de Causos) segue por uma trilha do suspense e horror, contudo com uma clara vertente para o romance policial em que seu narrador em primeira pessoa ao acessar reminiscências de sua memória relembra de uma de suas investigações em que é defrontado pelo "mágico" em contraponto ao seu cientificismo forense de princípio de Século XX visto que a obra ambienta-se nos anos de 1910;

4 - Aliás, quanto ao narrador podemos dizer que trata-se de um elemento curioso, pois a fluidez da voz de primeira pessoa chega a nos ludibriar como uma voz de terceira, inclusive dotada de certa onisciência. Se isto por um lado poderia ser um problema, ao que observamos que sua narração se dá muito tempo após os acontecimentos, e que estes de toda forma também impactaram de forma muito grande a sanidade de tal narrador, acaba construindo um elemento bastante interessante que casado à sua eloquência e erudição de época acaba nos convencendo como o leitor;

5 - Outro detalhe sobre a narração e da voz interna de suas personagens é que além da erudição encontraremos marcas da época que ao leitor de hoje pode soar com machismo ou racismo, todavia como isso se dá na composição dos personagens, faz sentido. Além disso, cumpre-se dizer que em tal narrativa temos o casamento de várias influências que vão de Doyle a Verne e que com isso apresentam o autor com fortes credenciais;

6 - Com isso temos uma viagem das mais interessantes pelos recônditos interiores do Brasil, especificamente na Serra da Canastra, em Minas Gerais, um local habitado por seres fantásticos e mortais em que muitas criaturas do folclore nacional surgem de maneira mais sangrenta do que o habitual e causando espanto em seu protagonista, um cético em meio a florestas encantadas, Jequitibás vingativos e Sacis como não se vê por aí;

7 - Contudo, se em grande parte a narrativa nos apresenta apenas qualidades, há um detalhe que o leitor de maior conhecimento linguístico poderá estranhar é a insistência do autor em padronizar "a fala caipira" de um modo ás vezes caricato não observando que mesmo no interior remoto a fala também sofrerá variações de acordo com camadas sociais, sendo que assim, coronéis ou pessoas que foram e voltaram da cidade não deveriam normalmente a falar como os demais. Este, é obviamente um pequeno detalhe e que em muitos momentos passará despercebido;

8 - Portanto, sem dúvida alguma temos aqui uma bela surpresa que demonstra que jamais se deve julgar um trabalho pela capa (algo que não fazemos por aqui) pois o livro desde seu primeiro capítulo te cativa e dá a demonstração de seu todo, com um vocabulário rico, sua prosa rítmica e uma impressionante demonstração de conhecimento das nossas riquezas de de como trabalhá-las de forma assertiva a construir um entrelaçamento da trama que deixa tudo muito bem organizado;

9 - Além disso, vale dizer que a narrativa é de grande capacidade de convencimento visto que seu narrador torna-se palpável, dando a sensação de ser um vivente de sua época em que narra a tal ponto de nos convencer de que passara por todas sua incríveis e fantásticas provações; 

10 - Enfim, Causo (ainda acho que deveria ser Causos visto que o narrador vai sendo apresentado às lendas por diferentes testemunhas) é uma boa leitura e de uma riqueza de elementos que a faz uma excelente escolha e uma ótima novidade, e ainda que esteja num limiar entre o juvenil e o romance de horror, é uma narrativa bastante autoral e qualificada que vale a pena conhecer.



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