10 Considerações sobre O último dos copistas, de Marcílio França Castro ou não é um limiar qualquer é uma passagem entre milênios

O Blog Listas Literárias leu O último dos copistas de Marcílio França Castro publicado pela Companhia das Letras; neste post as 10 considerações de Douglas Eralldo sobre o livro, confira: 


1 - Marcado pela fragmentação de vozes narrativas - quem em certo sentido adentram a problemática de autoria e narração, pois que temos aqui mais que narradores, mas uma autoria que seleciona e com isso entrega-nos um mosaico narrativo que não apenas utiliza-se das palavras, mas também das imagens - O último dos copistas ao mesmo tempo que percebe certa - e estranha - ponte que mantém-nos estranhamente conectados à Idade Média, mais especificamente ou textualmente citado o século XVI ao mesmo tempo que nos entrega um olhar melancólico para a ponta de cá da ponte, o nosso presente que incapaz de vislumbrar o devir, atenta-se à falência do que morre, como se fossemos todos nós um presente que já se tornou passado, vultos obsoletos que como fantasmagorias apenas perambulam existencialmente;

2 - Quando falamos e fragmentação, todavia devemos dizer que é uma fragmentação controlada, uma fragmentação de fácil colagem do conjunto. O romance é marcado por uma estética experimental, mas um experimental que volta e meia encontramos por aí. Suas vozes são cindidas, o que identificaremos facilmente tão logo vençamos a primeira de suas partes, justamente a que procura afastar-se da ideia de uma estrutura romanesca. A obra principia com um artigo, um artigo um tanto extenso com pendores acadêmicos, no entanto sem o ser. É mais um ensaio, um ensaio enquanto gênero e que no decorrer do texto assim se afirma;

3 - É neste ensaio que temos, digamos desse modo, uma das cabeças de ponte da ponte que liga os dois tempos distintos citados. O ensaio trata de Ângelo Vergécio, conhecido copista do século XVI cuja caligrafia teria inspirado a conhecida fonte tipográfica Garamond. O ensaio é escrito por um escritor identificado como F. C. e no texto trata da figura de Vergécio, representante de uma arte que adentra a obsolescência com o advento da tipografia e das prensas. No texto, além dessa transição marcada pela grande revolução tecnológica de seu tempo, o ensaio vai suscitando mistérios em torno do copista, mistérios que ecoarão no seguir do romance;

4 - A voz de F. C. termina ao cabo que termina o ensaio o qual será o responsável pela sequência da narrativa motivando as outras duas vozes que conduzem o romance e funcionam como linhas tramando as tessituras do todo. Um dessas vozes, inicialmente não estará explícita ao leitor, o que, contudo descobriremos no decorrer da leitura. A outra, se podemos dizer assim, a voz narrativa dominante, a mais próxima do que poderíamos definir como o narrador do romance, Eduardo, uma figura que é tanto si mesmo, mas de algum modo um eco temporal da obsolescência do copista, o último de seu tempo como nós temos sido os últimos de nosso tempo;

5 - Eduardo é um profissional que há pouco perdeu o emprego na Imprensa Oficial, o que ocorreu logo após sua separação. Entretanto, sua separação parece-nos não apenas com a ex-esposa, com o trabalho, com o mundo. Mineiro de Belo Horizonte ele acaba tendo de viver de bicos de revisão textual, seu ofício, segundo o próprio, também com os dias contatos. É com os bicos que lhe surge numa pequena editora que ele conhece Lygia uma jovem artista e ilustradora que será impactada pelo ensaio apresentado por Eduardo;

6 - Lygia fecha as vozes que fragmentam a narrativa, no caso dela uma voz que se apresenta de três formas diferentes sendo que uma delas, que inclusive fecha a narrativa, se dará num gênero morto, a epístola, coisa de um tempo já ido como o próprio Eduardo tratará quando falar da carta e dos mecanismos implicados numa troca de cartas que já não mais existem;

7 - Consideramos que as estruturas e as formas estéticas demandam nosso olhar com maior atenção. Elas não apenas significam que a narrativa nada tem a ver com o copista, bem como, tratam da forma, algo importante quando pensamos na linguagem literária - seria a literatura também uma arte obsoleta? - até por que em muitos momentos a narrativa adentra ao metaliterário. Além disso, é interessantíssimo que embora possamos pensar em Eduardo como um narrador principal do romance, o fato dele não iniciar tampouco fechar a narrativa. Além disso, não menos interessante os distintos usos da segunda pessoa, sendo que os autores-narradores dos respectivos textos estão sempre em diálogo com o outro, ou entre eles. Em suma, há elementos importantes e relevantes a se considerar quando olhamos para as estruturas desta obra com ares experimentais;

8 - Na verdade, nesse conjunto de vozes temos uma narrativa do desconforto. O desconforto de sermos os últimos de nossa espécie, se não no sentido absoluto de uma extinção, mas um olhar para uma transformação que se impõe e nos torna inexpressivos e obsoletos. Das profissões que se vão à língua e a arte que empobrece ao ápice máximo de desconforto e desencanto do narrador: a disrupção tecnológica que vivemos, esta centrada em seu principal arauto, o celular. Para o narrador somos como Vergécio, somos o último a fazer alguma coisa. Daí que surge suas afirmação "não é um limiar qualquer, é uma transição entre séculos". Nesse sentido Castro nos coloca na mesma situação das pessoas que testemunharam, que viveram e experimentaram a transição de um medievo ao moderno. Talvez sua declaração maior seja que estamos nesse tempo do sem-tempo, no processo de transição entre séculos, mas uma transição que não deve ser vista na redução de cem anos, pois pensando na ideia de ponto, a transição de Vergécio levou à modernidade, essa que perdurou por muito tempo e que enfim (mesmo sabendo que há algum tempo se dão outros nomes para períodos aparentemente posteriores ao moderno) mais um ciclo longo fecha-se e dá inicio há algo, um algo que não estamos sendo convidados a participar.  O celular (o aparelho que personifica-se como arauto e também algoz desses tempos) para o narrador "reúne múltiplos mundos, é um aniquilador de mundos". Se isto talvez seja quase senso comum entre os mais lúcidos, mas traga impacto, todavia o olhar mais assertivo do narrador parece-nos no fato de considerar que tudo isso "é o sinal de uma transformação mais radical, que está ocorrendo dentro das nossas cabeças". Eduardo sente nessas mudanças um desconforto marcado pela melancolia;

9 - Além disso, esse desencanto que paralisa e assassina qualquer possibilidade de utopia, delicadamente mas não sem que percebamos com o impacto, Eduardo apresenta-nos o pano de fundo não menos auspicioso. Nosso passado recente emerge com força e amplia o desconforto, as sombras provocadas pela pandemia, as tragédias políticas recentes e ainda com algum destaque enquanto inflexão e trauma as enchentes que assolaram Minas Gerais em 2019, inclusive sua capital, Belo Horizonte;

10 - Enfim, O último dos copistas é destas leituras amargas, porém necessárias. Isso porque desnudam realidades, se assim podemos dizer, que merecem e carecem reflexões, especialmente porque entrega-nos uma analise sobre nossa transição para meras fantasmagorias, assim como já o foram os copistas. O que carecemos a partir da leitura é nos perguntarmos se a fantasmagoria que nos substitui é análoga aos copistas, cuja obsolescência deu espaço aos tipógrafos, novos, mas ainda humanos, ou se a mudança, a transição do lado de cá da ponte do tempo a transição é mais radical de modo que cada ser humano tornou-se um copista: obsoleto. O que o livro tem dificuldade e o que nós todos temos, talvez, é justamente saber o que há pela frente, já que na neblina desse devir não há tipógrafos - ainda assim humanos -, apenas algoritmos.

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